sexta-feira, janeiro 14

O Brinquedo

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.
O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ía subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.
Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel,
E o menino ao vê- la assim, sorriu
E cortou- lhe o cordel.

MIGUEL TORGA “Diário”

segunda-feira, janeiro 10

Rima da Selva


Atiram-nos para o mundo e dizem desenrasca-te, sobrevive.
Ninguém nos diz ri, salta, canta, vive quando nascemos.
Mas em vez chorar, dormir e depois dizer "eu não estive",
agarramos o mar, ensinamos a amar... é o que fazemos.
"- Simba, desobdesceste-me deliberadamente...
- Mas eu só queria ser forte como tu..."

segunda-feira, janeiro 3

Gostei

Ficaram as frases...

"Segundo quarto à direita."
"Não monopolizem o cinzeiro."
"Onde é que está o meu DVD da Eurovisão?"
"Se te atirares à água, eu vou a seguir."

E os rabiscos:
"Infiltro-me completamente. Não me sinto. Sou pluma de existência.(...) Estou toda aqui e vivo só dos outros. Porque os amo sem chorar. Os amo devagarinho." 1 Jan 2005

E também há um video. ;)

No meio das tochas e do champanhe, uma música em abraço cotectivo:

-"Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.."

Um sorriso e.. 2005



sexta-feira, dezembro 10

Daniel da Minha Terra

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

Daniel Faria (1971-1999)

segunda-feira, novembro 29

Ítaca

Quando partires de regresso a Ítaca
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

Constantino Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas
(versão de Jorge de Sena)

terça-feira, novembro 9

Escreveram-nos uma carta.

É importante lê-la.
A inoportuna sempre tão oportuna...